As cartas são correspondências compostas por conversas, diálogos, trocas de informações, intercâmbio de pensamentos, culturas, bem como o compartilhamento de perspectivas íntimas e afetos. São um gênero literário, consideramos que seja também um gênero da crítica de artes e da pesquisa curatorial. As cartas apareceram para nós durante a realização das pesquisas em História da Arte, História dos Museus de Arte, das Exposições e da Curadoria. Ao investigar nos arquivos dos museus, nós nos encontramos com tipos diversos de documentações, entre elas: as correspondências. Nestas fontes nos deparamos com diálogos entre artistas, entre curadores e artistas, de museólogos com diretores de museus, dos diretores com curadores, ou seja, tínhamos um mapeamento das redes de sociabilidades que sustentam a circulação de saberes e obras de arte durante a concepção e a montagem de exposições.

Compreendemos, portanto, que para aprender a fazer curadoria de exposições, é preciso estudar as histórias das exposições. É necessário realizar deslocamentos, pois as exposições acontecem em espaços físicos específicos. Assim, é importante considerar que visitar exposições faz parte do ofício do curador. Seja da sua cidade e/ou de fora dela, para tanto, é preciso criar correspondências para conhecer as rotas, os jeitos de caminhar, os percursos e as narrativas são metodologias que foram um conjunto documental como campo de possibilidades que orientam o saber-fazer curatorial.

Tendo como referências as práticas de curadores, artistas, diretores de museus, museólogos, de escrever epístolas nos inspiramos para criar a Revista Cartas Curatoriais. Assim, os mesmos recursos que antes eram de circulação mais restrita tornam-se diálogos públicos sobre projetos de artistas e exposições. Durante os anos de 2018 e 2019 Carolina Ruoso, professora de Teoria, Crítica e História da Arte da Escola de Belas Artes da Universidade Federal de Minas Gerais publicou no Caderno Vida&Arte do Jornal O Povo da cidade de Fortaleza uma série de Cartas-Entrevistas, apresentando um diálogo poético, crítico e afetivo que estabeleceu com mulheres artistas. O projeto editorial era de Jader Santana e o designer gráfico era de Marcos Sampaio.

A série Cartas-Entrevista trouxe uma perspectiva teórico-metodológica para a pesquisa curatorial. Revelou a construção de um processo de aproximação com artistas, na elaboração de um registro de pesquisa, ao mesmo tempo, em que produzia uma ação de mediação cultural. Valorizando as conversas horizontais entre curadores e artistas, uma experiência de dialogo público que demonstra a feitura da pesquisa curatorial. A partir da criação das cartas-entrevista é possível desenvolver além da pesquisa curatorial para exposições, pesquisa curatorial em dissertações e teses, resultando em trabalhos acadêmicos.

A cartas curatoriais nasceram das pesquisas coordenadas por Carolina Ruoso no Grupo Estopim/CNPq da Escola de Belas Artes da UFMG. A linha de pesquisa teorias e metodologias da curadoria de exposições que atualmente tornou-se o Grupo de Pesquisa Cartas Curatoriais/CNPq.

Em um primeiro momento foi transmitida para os estudantes no grupo de trabalho: pesquisa curatorial da Rede de Pesquisa e Formação em Curadoria de Exposições desenvolveu o primeiro processo de formação em Curadoria de Exposições que envolveu esta abordagem teórico-metodológica. Em sua segunda edição o grupo de pesquisa curatorial contou com a coordenação de Aline Ambrósio, Luiza Helena Amorim e Lucas Dilacerda. A experiência resultou no desejo de realizar uma publicação com as Cartas-Entrevista elaboradas durante o Curso de Extensão em Curadoria de Exposições. Foi dessa demanda que reunimos nossos esforços para criar a Revista Cartas Curatoriais.

O grupo de trabalho sobre história das exposições teve na segunda edição a coordenação de Eduardo José de Castro e Míriam Célia. Neste espaço laboratorial da nossa rede foram trabalhadas as histórias das exposições a partir de seus arquivos e suas diversas fontes de pesquisa. Entendemos que é fundamental para o saber-fazer do curador de exposições o aprendizado da leitura e interpretação das fontes históricas das exposições. Por isso, incluímos uma carta dedicada especialmente ao compartilhamento da leitura dos documentos de arquivos de exposições.

Seguimos incluindo mais modalidades de cartas: as cartas de visitas às exposições, a partir das quais a experiência de visita é compartilhada a partir da narrativa para um amigo, um parente, um artista ou curador. Visitar exposições e escrever a respeito delas é parte do aprendizado de artistas e membros cooperadores dos mundos das artes, inclusive o curador de exposições. É uma elaboração de correspondências entre os membros da rede e demais interessados em exposições. Assim, teremos notícias a partir do intercâmbio das nossas passagens pelas mais variadas exposições, em todo território nacional e de alguns nos nossos contatos internacionais.

Poderemos ler também as cartas que são relatos de trabalhadores da cultura que atuam em projetos de exposições. Conheceremos a exposição a partir do olhar das pessoas que atuam em seus bastidores. Nos apresentando a dimensão humana desse fazer, trazendo para o curador a consciência de que uma exposição é resultado do trabalho de muitas pessoas. A pesquisa curatorial é uma parte que integra um todo bastante complexo.

Para concluir quero apresentar também as cartas que são resultados das leituras realizadas a respeito de pesquisas que abordam o tema da curadoria de exposições ou do curador de exposições. Correspondências que são manifestações das impressões de leitura, dos aprendizados, das correlações estabelecidas e que nos indicam as motivações que evidenciam o interesse despertado naquela leitura. Nós temos um ateliê de leitura onde nos debruçamos sobre textos acadêmicos no âmbito dos estudos curatoriais.

Nos esperamos expandir as maneiras de compartilharmos, a partir da cooperação e da ajuda mútua, os saberes-fazer do curador de exposições.

Desejamos também contribuir para a pluralidade criativa na elaboração de textos críticos de exposição.

Boa leitura,

Apresentação de Carolina Ruoso

Comitê Editorial

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